terça-feira, 22 de junho de 2010

[STBSEB:4320] O mito do ‘nunca mais’ em relação a genocídios, artigo de Kofi A. Annan

O mito do 'nunca mais' em relação a genocídios, artigo de Kofi A. Annan

fonte: http://www.ecodebate.com.br/2010/06/22/o-mito-do-nunca-mais-em-relacao-a-genocidios-artigo-de-kofi-a-annan/


Inscrição "O trabalho liberta", na entrada no antigo campo de
concentração de Auschwitz. Foto da Comissão de Investigação de Crimes
de Guerra/USHMM Photo Archives

[International Herald Tribune] Muitos países na Europa e na América do
Norte exigem atualmente que todos os alunos de segundo grau recebam
aulas sobre o Holocausto. Por que? Devido à importância histórica, é
claro, mas também porque, no nosso mundo cada vez mais diversificado e
globalizado, educadores e elaboradores de políticas acreditam que a
educação sobre o Holocausto seja um mecanismo vital para ensinar aos
alunos os valores da democracia e dos direitos humanos, e para
encorajá-los a repudiar o racismo e a promover a tolerância nas suas
respectivas sociedades.

Isso era certamente o que eu tinha em mente em 2005 quando, como
secretário-geral da Organização das Nações Unidas ONU), solicitei à
Assembleia Geral que aprovasse uma resolução referente à Memória do
Holocausto, que incluía um pedido de "medidas no sentido de mobilizar
a sociedade civil para a memória e a educação sobre o holocausto, a
fim de prevenir futuros atos de genocídio".

De fato, é praticamente óbvio que a educação sobre o Holocausto tenha
tal objetivo e efeito. Mas é surpreendentemente difícil encontrar
programas educacionais que tenham apresentado sucesso indubitável em
vincular a história do Holocausto à prevenção de conflitos étnicos e
genocídios no mundo de hoje.


É claro que sempre é difícil provar que houve prevenção. Mas pelo
menos é possível afirmar que o grito de "nunca mais", emitido por
tanta gente nos anos posteriores a 1945, tem se tornado cada vez mais
vazio com o passar das décadas. O Holocausto continua sendo um fato
único no que se refere à sua combinação de meios técnicos e
organizacionais sofisticados e o mais feroz e brutal dos objetivos,
mas casos de genocídio em grande escala e de brutalidade impiedosa
continuam se multiplicando – do Camboja ao Congo, da Bósnia a Ruanda,
do Sri Lanka ao Sudão.

Atualmente, poucos países, mesmo aqueles que fazem parte do grupo dos
que exigem que os seus professores ensinem aos alunos sobre o
Holocausto, proporcionam a estes professores treinamento ou orientação
específica a respeito de como fazer isso. E poucos professores em cada
país contam com o conhecimento ou as habilidades para dar aulas sobre
o Holocausto de uma forma que poderia capacitar os adolescentes de
hoje, que muitas vezes representam dentro de uma única sala de aula
uma ampla variedade de etnias e culturas, a relacionarem esse fato com
as tensões que eles encontram nas suas próprias vidas. Não há dúvida
de que existe uma necessidade de aumento quantitativo e qualitativo do
treinamento dos professores.

Mas será nós sabemos qual deveria ser o conteúdo desse treinamento?

Se o nosso objetivo ao ensinar aos alunos sobre o Holocausto é fazer
com que eles pensem mais profundamente sobre responsabilidade cívica,
direitos humanos e os perigos do racismo, então é de se supor que nós
precisamos vincular o Holocausto a outras ocorrências de genocídio, e
a conflitos étnicos ou tensões ocorridos tanto na nossa época quanto
nos lugares que habitamos. Isso permitiria aos estudantes não apenas
adquirir conhecimento sobre o Holocausto, mas também a aprender lições
importantes a partir dele.

Não há dúvida de que é chegado o momento de levantar algumas questões
difíceis a respeito da educação "tradicional" sobre o Holocausto, e
talvez de repensar algumas das premissas nas quais tal educação tem se
baseado. Será que programas focados no sistema e na ideologia
nazistas, e particularmente na experiência horrenda dos seus milhões
de vítimas, se constituem em uma resposta efetiva ao, ou profilática
contra, os desafios que enfrentamos atualmente?

É fácil nos identificarmos com as vítimas. Mas se nós quisermos
prevenir futuros genocídios, não seria igualmente importante entender
a psicologia dos perpetradores e observadores – a fim de compreender o
que leva um grande número de pessoas, muitas vezes "normais" e
decentes, na companhia das suas famílias e amigos, a suprimir a
empatia humana natural por pessoas que pertençam a outros grupos e a
participarem, ou a ficarem observando ou testemunhando caladas, do
extermínio sistemático dessas pessoas? Será que nós não precisamos nos
concentrar mais nos fatores sociais e psicológicos que conduzem a tais
atos de brutalidade e indiferença, de maneira que possamos conhecer os
sinais de alerta e procurar esses sinais em nós mesmos e na nossa
sociedade?

E será que os atuais programas educacionais fazem o suficiente para
revelar os perigos inerentes aos estereótipos e preconceitos de
natureza racial ou religiosa, e para imunizar os estudantes contra
esses perigos? E o ensino da história do Holocausto nas salas de aula
correlaciona suficientemente esse fato com as causas básicas do
racismo e do conflito étnico contemporâneo? E será que o Holocausto
não deveria ser estudado não apenas na Europa, na América do Norte e
em Israel, mas também em todo o mundo, juntamente com outras formas
trágicas de barbarismo humano?

Tais questões estarão no centro de uma conferência que acontecerá
neste mês no Seminário Global de Salzburgo, na Áustria, sobre o tema
"A Prevenção Global do Genocídio: Aprendendo com o Holocausto". Os
organizadores esperam que isso leve à criação de um programa anual
para professores de todo o mundo.

Isso certamente não é um problema que tem uma solução única para todos
os casos. Ensinar a respeito do Holocausto em uma sala de aula na
Ucrânia é obviamente diferente de ensinar a mesma coisa em Israel, e
de fato é provável até que a forma deste ensino varie mesmo em se
tratando de distritos diferentes de uma mesma cidade europeia. Mas as
ideias e os exemplos podem sem dúvida ser compartilhados de forma
vantajosa, e parece apropriado o fato de a Áustria – que forneceu em
abundância tanto vítimas quanto perpetradores das atrocidades nazistas
– ser a anfitriã de tal programa.

*Kofi A. Annan, o ex-secretário da Organização das Nações Unidas, é o
presidente honorário do comitê assessor do Programa de Prevenção do
Genocídio e Educação sobre o Holocausto no Seminário Global de
Salzburgo.

Do [The Myth of 'Never Again'] International Herald Tribune, no UOL Notícias.

EcoDebate, 22/06/2010


--
Carla Geanfrancisco
Guarulhos/SP
Fone: (11) 89028703 - Oi
(11) 69047767 - Vivo
carlageanf@gmail.com
carlageanf@hotmail.com (somente para msn)
carlageanf@terra.com.br
skype-> carla.geanfrancisco

"A mente que se abre a uma nova idéia,
jamais voltará ao seu tamanho original"
Albert Einstein

--
Você recebeu esta mensagem porque está inscrito no Grupo "Todos que
Passaram pelo Seminario Teologico Batista Guarulhos e tem muito amor e
conteudo a repartir" nos Grupos do Google.
Para postar neste grupo, envie um e-mail para
stbguarulhos@googlegroups.com
*Não repassar, para ninguém, os debates do grupo;
*Ler sempre com o coração, tendo paciência na interpretação das palavras,
inclusive levando-se em conta o perfil de seu autor, antes de efetuar um
comentário ou resposta;
*Evitar usar palavras de gosto duvidoso, como gírias, etc;
*Respeitar a autoria dos artigos, indicando sempre o nome do autor do artigo
publicado e a fonte e se possível com o link de acesso;
*Conhecer a Declaração Doutrinária da CBB e colocá-la em prática no grupo como regra geral;
*Não difamar nenhuma instituição, principalmente as religiosas;

Nenhum comentário:

Postar um comentário