quarta-feira, 26 de maio de 2010

[STBSEB:4211] A Igreja e o Poder - "A Elite Eclesiástica Brasileira", de Sergio Miceli, é o livro que merece destaque em nossa resenha do mês

Segue resenha abaixo, alguém leu? Podem comentar? Quanto a posição politica do autor, alguem pode fazer alguma referencia?
 
A Igreja e o Poder
"A Elite Eclesiástica Brasileira", de Sergio Miceli, é o livro que merece destaque em nossa resenha do mês
por Walter Falceta Jr.


Ilustração: Leandro Valquer

No Brasil, o catolicismo constituiu-se na religião com o maior número de adeptos. Mesmo aqueles que não frequentam as missas e não recebem os sacramentos acabam por incorporar padrões de comportamento gerados na casa de Pedro. Pensamos "catolicamente". E os bons marqueteiros eleitorais sabem que as mensagens "aderentes" são aquelas que refletem valores e princípios anunciados por Roma.

É curioso, no entanto, que se saiba tão pouco sobre a história da Igreja no país. Ouvimos falar do bispo Sardinha, dos jesuítas, de Anchieta, do padre Vieira e, mais recentemente, dos combatentes humanistas D. Helder Câmara e D. Paulo Evaristo Arns. Quem pesquisar o assunto encontrará lacunas na narração dessa aventura de fé. É o caso do período da República Velha. Muitos pesquisadores ainda acreditam que, em 1890, momento do divórcio entre Estado e Igreja, iniciou-se um longo período de estagnação e inércia da instituição. Trata-se, na verdade, de uma fase rica de transformações, em que a Igreja aprendeu a se organizar corporativamente.

Ilustração: Leandro Valquer
Livro: A Elite Eclesiástica Brasileira
Autor: Sergio Miceli
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2009

 

Publicado pela primeira vez em 1988, o livro "A elite Eclesiástica Brasileira", de Sergio Miceli, professor de Sociologia na USP, revela que nesses 40 anos, ou seja, até 1930, os prelados lograram êxitos em diversas frentes: estabeleceram fontes de receita, recuperaram patrimônio imobiliário, construíram e aprimoraram casas de formação e seminários, ampliaram a presença territorial da "organização", criaram uma rede de serviços educacionais e profissionalizaram suas equipes de trabalho. Esse árduo trabalho ergueu as bases para que a Igreja se reestruturasse enquanto empreendimento e pudesse, já a partir da década de 1930, reassumir um lugar de importância na vida política nacional.

Durante a vigência do regime do padroado, o poder temporal avançou sobre os assuntos eclesiásticos, ingerência que foi ampliada no Segundo Reinado. Em 1855, por exemplo, proibiu-se a admissão de noviços pelas ordens religiosas. Sete anos depois, impediu-se o ingresso no país de brasileiros ordenados no exterior. Por quase um século, não foram criados seminários no Brasil, e o governo exercia rígido controle sobre os conteúdos curriculares nas casas de formação.

 

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As autoridades públicas também decidiam sobre a criação de paróquias, a divulgação de documentos pontifícios e a indicação de bispos. Na década de 1870, agravou-se o confronto entre os prelados brasileiros, interessados em exercer suas prerrogativas canônicas, e o governo imperial. Em meio a esses embates duros, ainda que elegantes, foi implantado o regime republicano. A elite eclesiástica conquistou sua autonomia, mas, ao mesmo tempo, perdeu os polpudos subsídios governamentais com os quais contava para desenvolver suas atividades.


A obra de Miceli tem sua matriz em um estudo acadêmico, mas o texto não chega a ser quadrado ou áspero. Para fazê-lo redondo e liso, colaboram os textos que narram as saborosas histórias de alguns desses bispos realizadores

 

As lideranças da Igreja viram-se na obrigação de desenvolver urgentemente mecanismos que garantissem rentabilidade à instituição. Sem dinheiro em caixa e sem patrimônio físico, não havia como desenvolver o projeto de ressurreição política, tampouco implementar a "romanização" ritual e burocrática da corporação. A primeira grande batalha se deu em torno da recuperação dos bens da Igreja sob controle do Estado ou de irmandades leigas. Essa disputa, entretanto, não instaurou um regime de conflito aberto com dirigentes locais. Na verdade, os "bispos empresários" mais bem-sucedidos foram aqueles que logo fizeram alianças com as figuras-chave do poder oligárquico.

Nos primeiros anos da República, a educação foi laicizada e os governos estaduais acabaram impedidos de subvencionar unidades educativas religiosas. Além disso, as reformas no ensino ergueram inúmeros obstáculos ao desenvolvimento do ensino confessional. Mesmo assim, no entanto, os empreendedores católicos foram capazes de montar, rápida e formidavelmente, uma rede de serviços educacionais destinados às elites. No período, as escolas secundárias, masculinas ou femininas, constituíram-se na mais rica fonte de recursos para a corporação.

Nesse período de reestruturação, a Igreja reaproximou-se do papado. A firme orientação doutrinária e sobretudo disciplinar que Roma passou a exercer nos seminários brasileiros - como destaca Miceli -, colaborou para fazer vingar o projeto de "moralização" e profissionalização do clero. Os bispos, como gerentes de uma multinacional, começaram a seguir a determinação canônica de realizar as visitas ad limina, destinadas à prestação de contas da atividade administrativa e à entrega de contribuições pecuniárias.Esses importantes aperfeiçoamentos, entretanto, não podem ser atribuídos à absorção pura e simples de um modelo de gestão importado. O estudo revela a construção de uma "cultura organizacional" própria, tropicalizada, sustentada por procedimentos padronizados de administração e um estilo brasileiro de comando.

A consulta de fontes primárias de informação, sobretudo documentos da própria Igreja, resultou na coleta de dados importantes para mensurar o trabalho dessa safra de prelados empreendedores. Entre 1890 e 1930, foram criadas no país 56 dioceses, 18 prelazias e três prefeituras apostólicas. Nelas, foram trabalhar cerca de 100 bispos. A localização dessas novas sedes de poder evidencia um plano estratégico geopolítico dos executivos da instituição. Líderes religiosos insurgentes, como Antonio Conselheiro e padre Cícero Romão Batista, foram isolados pela instituição. Incapazes de desmantelar os movimentos de Canudos e Juazeiro, os prelados trataram de cercar esses focos de cisma, reforçando o ministério sacramental e a pregação doutrinária nas regiões vizinhas.

No livro, Miceli também apresenta uma detalhada radiografia dos estratos fornecedores da mão de obra para a Igreja que se reestruturava. Há os representantes das famílias da aristocracia imperial, fontes de prestígio e recursos para a instituição. Juntam-se a esses, em posição subalterna, os funcionários colhidos entre o patriciado decadente. Completa-se o quadro com uma parcela miúda de homens de origem humilde, os "filhos da Igreja", que desde cedo fizeram carreira na instituição.

A obra de Miceli tem sua matriz em um estudo acadêmico, mas o texto não chega a ser quadrado ou áspero. Para fazê-lo redondo e liso, colaboram os textos que narram as saborosas histórias de alguns desses bispos realizadores.

A Igreja tem papel fundamental na construção de nossa cultura residente e das organizações políticas que hoje controlam o Estado, especialmente a agremiação que elegeu Luiz Inácio Lula da Silva à presidência. A leitura do livro vale para quem pretende descobrir como foram erguidas, de fato, as bases autônomas dessa instituição empreendedora que se reinventa sempre, mesmo em silêncio.

 

 

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