Pregar - que bênção! Que responsabilidade! Fui agraciado pelo Senhor com várias oportunidades nesta semana, e mais três sermões me aguardam, dois dificílimos, pois estou expondo o livro de Apocalipse, um capítulo por vez. Para cada capítulo pregado, várias horas de estudo, oração e súplicas. Confesso que me sinto pequeno para tão grande obra. Muitas vezes eu gostaria de estar sentado num dos bancos, quietinho, fazendo a minha devoção pessoal, adorando ao meu Deus, a quem tanto amo e de quem tanto falo.
Às vezes o auditório nos deixa um pouco entristecidos. Tenho que reconhecer isso. Preparamo-nos para pregar e aguardamos um bom número de pessoas, mas, quando chega a hora da atividade, não contamos com uma presença maciça. Nesta semana foi assim. Na terça-feira preguei às senhoras no encontro semanal das Mulheres Cristãs em Ação. São cerca de 40 senhoras, mas apenas 7 estavam presentes, com mais duas visitantes. À noite preguei sobre Apocalipse 13. Talvez o auditório tivesse umas 20 pessoas. Na quarta-feira tínhamos umas 60 pessoas, e hoje à noite novamente umas 20. E o que fazer quando temos um auditório pequeno? Entristecer-nos? Pregar algo mais "light", menos rebuscado, mais simples e rápido? Ah, leitor amigo, "enganoso é o coração do homem, mais do que todas as coisas". Somos falhos, somos pecadores, e no coração do pregador aparecem resquícios de mágoa.
A vaidade humana é terrível. Somos tentados a pensar muitas coisas. O velho homem nos diz: "Reclame! Afinal, não é um auditório suficiente! Poderia haver mais gente! Eles não querem te ouvir! Você está perdendo tempo nesta igreja!". São as tentações dos pregadores - jactância, soberba, orgulho, auto-engrandecimento, raiz de amargura. Quem é pregador constante, e é ministro do Evangelho, sabe do que falo.
Nessas horas nos lembramos de grandes oportunidades que tivemos para servir ao Senhor num púlpito, assim como os músicos se recordam de grandes noites de louvor, ou os esportistas de inesquecíveis partidas. Sim, passei a lembrar-me de momentos marcados em minha alma, cultos célebres. Deus foi muito gracioso para comigo ao longo dos anos. Pude pregar em New York, Alabama, North Carolina, cerca de 20 igrejas americanas, umas pequenas, outras gigantescas, com auditórios imensos. Pude falar na Argentina, no Espírito Santo, Rio, Minas, Paraná, Santa Catarina, e no interior de São Paulo. Ah, como tenho lembranças! E uma das coisas mais gostosas e gratificantes é quando reencontramos alguém que esteve presente em uma de nossas pregações, que se recorda do que ouviu, provando que realmente prestou atenção e que o Espírito Santo nos usou. Há alguns dias um irmão esboçou oralmente uma pregação que fiz na Igreja Batista de Munhoz Júnior, em Osasco, há 9 anos atrás, e em sua memória estava tão viva como se eu tivesse pregado ontem!
Mas todo pregador tem um começo, e o meu foi num lugar rude e pobre, o CETREN de São Paulo, onde os mendigos acotovelavam-se, esperando um prato de comida e ouviam a mensagem. Aliás, não foi uma nem duas vezes que lá preguei. Lá foi a minha escola, o meu seminário de dois anos! Dominicalmente nossa igreja fazia uma tarde evangelística nesse local. Sempre encontrávamos umas 200 pessoas presentes. Ali eu preguei minha primeira mensagem: Salmos 37.5. Demorei 2,5 minutos! E a palavra de incentivo do irmão Sebastião, dirigente, me animou e me fez caminhar o resto do caminho. Eu tinha na ocasião, 14 anos, e foi com essa idade que assumi o púlpito da Igreja Batista de Sumarezinho pela primeira vez, tremendo, nervoso, ansioso, suando frio, com um terno emprestado do meu pai. Daí para frente não parei mais. O Senhor me chamou para isso. Bendito seja o nome dEle por isto!
No CETREN enfrentávamos o Diabo face a face. Pessoas perdidas caiam endemoninhadas na nossa frente. Nunca, absolutamente nunca, um endemoninhado continuava possuído. Sempre havia decisões ao lado de Cristo após o apelo que fazíamos. Todo domingo tínhamos 20, 50, 70 decisões. Era glorioso! Não medíamos tempo, esforços ou distâncias. Tudo fazíamos para agradar ao nosso Senhor. E ali aprendi o que significa ir até o mundo perdido "proclamar as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz". Quando o Senhor chama alguém, Ele coloca na sua mente, no seu sangue, nos seus planos, no seu tudo, a importância de ser um porta-voz dos ensinos bíblicos, um instrumento do Senhor. E não somos dignos de tamanha responsabilidade, mas nos colocamos à disposição de Deus, para que Ele nos use.
Antigamente, quando subia ao púlpito e contemplava um auditório pequeno, eu me entristecia muito. Passava o culto todo com a fisionomia triste e assim era a minha mensagem. Várias pessoas perguntavam o que estava acontecendo, e quase sempre eu influenciava o ambiente, tornando-o melancólico. Um dia, porém, com os joelhos dobrados, orei ao Senhor, pedindo-lhe que me ajudasse, pois eu ficava triste, sentia-me desprezado ou desvalorizado, pois as pessoas não faziam questão de me ouvir. Foi então que o Espírito Santo tocou em meu coração com uma frase que nunca mais irei esquecer: "perde quem falta". Sim, ali estava a resposta: o problema era deles, dos que faltavam. Ao invés de ficar triste pelos que não vieram, eu deveria ficar feliz pelos que estavam presentes! Ah, como foi maravilhosa essa iluminação do Espírito Santo em minha mente! Passei a alegrar-me no Senhor com muitos ou com poucos, e as coisas mudaram radicalmente! Eu não tinha o direito de punir os presentes, em nome dos ausentes. Os faltosos que se auto-examinassem e mudassem de atitude. Nós, os participantes, iríamos continuar com eles ou sem eles. E assim nunca mais deixei a tristeza tomar conta do meu coração. E mais: quem era eu para querer que pessoas viessem me ouvir? Apenas um servo, e nada mais. Não pode haver lugar para o auto-engrandecimento. Um pregador que se preza deve lembrar a máxima de um autêntico porta-voz do Evangelho: "importa que Cristo cresça e que eu diminua".
A Igreja Batista Boas Novas de Osasco, com seus 92 membros, é o meu mundo. Nunca me esqueço de um pastor que, ao pregar, lembrou-se de um caso acontecido numa pequena cidade americana, onde um famoso evangelista foi até uma cidadezinha pregar. Havia 700 pessoas no lugarejo. Havia um serviço de auto-falantes e o pastor convidou O MUNDO INTEIRO para ouvir o pregador. O evangelista achou graça, mas o pastor disse: "Para você o mundo inteiro é bem grande, mas para a obra que Deus me incumbiu o mundo inteiro é aqui. Neste lugar o Senhor irá avaliar o meu amor por Ele, e para eles eu sou o evangelista que eles têm. Aqui é o meu mundo inteiro". Não importa se somos incumbidos pelo Senhor a ocupar um lugar de destaque ou ficar num obscuro lugar. O melhor lugar para se estar é no centro da vontade de Deus.
E eu amo a minha igreja. Se me preparo, me preparo para servi-los. Se oro, oro para ministrar-lhes do amor de Deus. Se trabalho, faço-o no afã de vê-los amadurecendo no Senhor. Se evangelizo, desejo que muitos pecadores se convertam ali, num crescimento correto daquela igreja. E o meu Deus cobrará do meu púlpito a integridade da palavra pregada.
Peço a Deus que me conceda humildade a cada dia, para não me considerar nada mais do que um servidor do Senhor, ânimo para pregar mesmo quando os tempos não são tão calmos quanto gostaria que fossem, integridade, para que não haja incoerência entre a mensagem pregada e a mensagem vivida, e poder do Espírito Santo, sem o qual serei um orador, um declamador, um falador, mas nunca um pregador do Evangelho.
Que Deus me ajude.
Obrigado por ler-me.
Pr. Wagner Antonio de Araújo.
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