terça-feira, 6 de abril de 2010

[STBSEB:4017] Os Mortos No Oriente Médio Valem Mais Que Os Outros? artigo de Marcos Guterman

Os Mortos No Oriente Médio Valem Mais Que Os Outros? artigo de Marcos Guterman

Um valioso levantamento, publicado no site Open Democracy, mostra que o conflito entre israelenses e palestinos recebe atenção desproporcional da mídia em relação a outros confrontos, muito mais sangrentos e devastadores, sobretudo na África.

O texto, de Noah Bernstein, começa com um exemplo eloquente. Em dois dias de dezembro de 2008, o Exército de Resistência do Senhor (cristão fundamentalista) matou e mutilou 200 civis congoleses. O grupo "estuprou mulheres e meninas, quebrou o pescoço de bebês e cortou lábios e orelhas daqueles que não matou". Nos mesmos dois dias, o cessar-fogo entre Israel e Hamas estava por um fio.

De acordo com o World Press Tracker, que mensura a cobertura da imprensa mundial sobre conflitos e emergência humanitárias, as 48 horas do impasse israelo-palestino foram noticiadas 40 vezes; já o massacre no Congo não foi sequer mencionado. Nas três semanas seguintes, a invasão israelense de Gaza deixou 926 palestinos e três israelenses mortos, notícia reportada 2.896 vezes pela mídia. Enquanto isso, no mesmo período, o Exército de Resistência do Senhor matou 865 civis e seqüestrou 160 crianças – e esses acontecimentos apareceram apenas 20 vezes na imprensa.

"O fascínio da mídia ocidental com o conflito israelo-palestino ofusca a morte e a opressão em outras partes do mundo. Gilad Shalit (soldado israelense seqüestrado pelo Hamas) e os foguetes Qassam são familiares para muita gente; a morte de 5,9 milhões de pessoas na Segunda Guerra do Congo não", escreve Bernstein, que constata: muitos questionam a cobertura enviesada no Oriente Médio, ora a favor de israelenses, ora a favor de palestinos, mas pouca gente critica a primazia dada ao conflito no Oriente Médio na cobertura jornalística das guerras.

Os argumentos para justificar a atenção excessiva dada ao Oriente Médio variam. O primeiro deles é que o Ocidente se considera moralmente responsável pelo que acontece na região, já que ajudou a fundar um país para abrigar uma minoria perseguida (os judeus) e acabou criando outra minoria perseguida (os palestinos). Mas, como explica Bernstein, a questão da Caxemira, problema igualmente "criado" pela ONU, na descolonização de Índia e Paquistão, matou dez vezes mais gente que o conflito israelo-palestino e merece atenção muito menor. O mesmo se dá com disputas territoriais na África significativamente mais sangrentas, também como resultado do desmonte do mundo colonial ocidental, e que não freqüentam os jornais.

Outro argumento usado é o tamanho do sofrimento dos palestinos, que teria caráter excepcional e é geralmente qualificado de "genocídio" pelos críticos do Ocidente. Mas uma olhada no mapa da África e da Ásia mostra uma situação desesperadora de milhões de refugiados que, no entanto, mal aparecem no noticiário. Como mostra Bernstein, só o conflito no Sri Lanka matou 50 vezes mais civis que o israelo-palestino desde 1980; no já citado Congo, o número é 5.000 vezes maior. Além disso, a qualidade de vida dos palestinos é bem melhor do que a média desses outros povos oprimidos – a expectativa de vida é de 73,3 anos, o índice de alfabetizados chega a 93,8%, e a desnutrição infantil atinge apenas 3%, números melhores que os do Brasil e que estão no nível dos países que têm "alto desenvolvimento humano" em medição da ONU. Nada disso parece traduzir um "genocídio".

A justiça da luta nacional palestina, após quatro décadas de ocupação israelense, é outro ponto que ajuda a catapultar o Oriente Médio às manchetes. No entanto, o mundo está cheio de lutas nacionais, ignoradas ou negligenciadas pela mídia. Há os casos óbvios do Tibete, com mais de 1 milhão de mortos desde 1959, e o da Tchetchênia, com 60 mil civis mortos desde 1994, que só aparecem de vez em quando no noticiário. E há casos absurdos como o do Saara Ocidental, ex-colônia espanhola invadida pelo Marrocos, cujo Exército reprime o movimento independentista local. Há até um muro de separação, tal como na Cisjordânia. No entanto, o Saara Ocidental apareceu três vezes na mídia ocidental ao longo de 2009, e isso porque havia um ativista em greve de fome num aeroporto.

A intensidade da atenção dada ao que ocorre no Oriente Médio tem efeitos perversos – e o principal deles é que tanto Israel quanto os palestinos recebem ajuda desproporcional às suas necessidades e mesmo em relação ao resto do mundo. Em 2006, mostra Bernstein, 12% de toda a ajuda externa dos EUA foi para Israel. Isso equivale à ajuda americana dada a todo o continente africano, fora o Egito. Já os refugiados palestinos receberam da ONU (vale dizer, dos EUA, seu principal financiador) US$ 72 per capita, enquanto refugiados do resto do mundo receberam US$ 53 per capita. E há uma agravante: os palestinos são o único grupo de refugiados do mundo a ter uma agência da ONU só para eles, a UNRWA, coisa difícil de justificar. Por outro lado, fica fácil saber por que certos líderes palestinos e israelenses não querem que o conflito acabe: ele dá dinheiro.

Para Bernstein, a explicação mais evidente de toda essa distorção é o escopo do conflito israelo-palestino: ao contrário do que dão a entender os discursos e a retórica inflamada, a importância que se dá à crise do Oriente Médio tem a ver muito menos com questões humanitárias e muito mais com ideologia e geopolítica.

Diferentemente das guerras na Ásia ou na África, uma eventual guerra no Oriente Médio tem o potencial de escalar para uma conflagração mundial. O mais importante, porém, é que se trata da materialização do confronto do "imperialismo ocidental" contra os "atrasados e opressores árabes", dependendo de onde se olha. E isso faz a delícia da mídia e de seus consumidores.

Artigo publicado no Blog de Marcos Guterman

* Colaboração de frei Gilvander Moreira para o EcoDebate, 06/04/2010

 

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