quarta-feira, 10 de março de 2010

[STBSEB:3904] Filosofia: A fundamentação Oriental da Filosofa ocidental

encaminho aos irmãos,  para conhecimento, como estudo....
 
A fundamentação Oriental da Filosofa ocidental
Na Antiguidade ou em tempos mais recentes, muitos filósofos ocidentais contruíram seus sistemas de pensamento baseadis em ideias vidas do Oriente

Por Alexey Dodsworth

SHUTTERSTOCK

Não é nada incomum - ao contrário, é extremamente corriqueiro - que nos deparemos com o termo "filosofia" sendo utilizado dentro de um sentido que foge completamente ao acadêmico. Falamos em "filosofia de vida" como forma de referência às nossas crenças particulares, às coisas que acreditamos como sendo certas ou erradas. Dizemos frases tais quais "a minha filosofia de vida", ou "segundo a filosofia da minha avó" e mal nos apercebemos do fato de que, mesmo quando dizemos detestar as abstrações da Filosofia, isso ainda assim é um tipo de pensamento filosófico. Olhando por este lado, é natural considerar que a maioria dos seres humanos em várias culturas pensa, reflete, pondera e chama a todos estes procedimentos de "Filosofia".

Academicamente falando, a coisa é um tanto diferente. Em primeiro lugar, ninguém se torna filósofo por se formar numa faculdade, por mais bem reputada que ela seja e por melhores que sejam as notas no histórico escolar. São raros os indivíduos que construíram um pensamento criterioso e original e que podem ser reconhecidos academicamente como sendo "filósofos". Ou seja: quando falamos em "filosofia de vida", não estamos nos referindo ao pensar criterioso que constitui o procedimento filosófico. Afinal, nem sempre a tal "filosofia de vida" deriva de um pensamento criterioso, podendo ser mera repetição de um hábito mental ou emocional que nada tem de amor à verdade. Pode ser apenas um condicionamento que nada tem de reflexivo.

Alexey Dodsworth é bacharel em Filosofa pela USJT, graduando em Astronomia pela USP e membro da MENSA

ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Alexandre, o Grande, no templo de Jerusalém. O rei da Macedônia teria enviado Pirro de Elias, pai do ceticismo, à Índia para que estudasse com os sábios indianos e trouxesse a doutrina destes para o Ocidente

Deste modo, há o emprego do termo num sentido coloquial e o emprego do mesmo termo num sentido acadêmico.

Vemos também a palavra "filosofia" ser continuamente utilizada em outro contexto, em que seria mais válido, stricto sensu, falarmos em "Teosofia". Há uma substancial diferença entre uma coisa e outra, muito embora não caiba aqui um juízo de valor que estabeleça a Filosofia como sendo superior à Teosofia, ou vice-versa. Estabelecer a diferença não envolve criar uma competição que vise a aferir o que é melhor ou pior, vale salientar. Ao contrário: estabelecer a diferença é uma forma de valorizar o que cada saber tem a oferecer.

FILOSOFIA E TEOSOFIA

Aristóteles, em sua Metafísica, afirma que Tales de Mileto e seus discípulos foram os primeiros filósofos. Isso não significa que antes de Tales ninguém refletisse ou ponderasse, e não significa que não houvesse uma literatura rica em mensagens de sabedoria antes dos gregos. Obras clássicas e muito mais antigas do que a Bíblia, como os Vedas (livros sagrados da Índia) estão repletas de mensagens de sabedoria às quais muitos se referem como sendo "Filosofia oriental". Todavia, há uma imensa diferença entre as verdades reveladas à nossa disposição oferecidas pela Bíblia, pelos Vedas ou pelo Alcorão e a obra filosófica que nos foi legada por Platão, Espinosa, Deleuze ou Kant. No caso dos ditos livros sagrados, o saber disponível ali foi supostamente revelado por Deus, utilizando agentes humanos como escribas, constituindo, portanto, obras teosóficas (do grego theos, "Deus" e sophos, "sabedoria", ou "sabedoria divina"). Totalmente diferente é o legado do pensamento de Kant, ou de David Hume, do próprio Aristóteles, etc. Nenhum desses homens alega ter recebido uma visão divina. Seus escritos derivam de suas próprias mentes, das reflexões que teceram a partir do confronto com o mundo circundante ou mesmo do confronto com obras filosóficas passadas. A isso chamaríamos de Filosofia: o pensar criterioso que surge como o resultado de um trabalho da mente humana. E, por mais criterioso que seja este pensar humano, ele se submete a contestações. O mesmo não se dá com o saber proveniente da Teosofia, mesmo que ela seja milenar como a oferecida pelos Vedas. Relacionar-se com os Vedas exige entrega total, é um ato de fé em que não cabem questionamentos da mente humana, considerada por demais falível. Seria preciso - segundo o pensamento védico - um ato de total confiança e entrega para que Deus se revelasse e, com ele, toda a Verdade com "V maiúsculo". Note-se que tal condição não é nada diferente daquela preconizada por Santo Agostinho que, muito depois dos Vedas, evoca a mesma entrega incondicional às verdades bíblicas.
 
A fundamentação Oriental da Filosofa ocidental
Na Antiguidade ou em tempos mais recentes, muitos filósofos ocidentais contruíram seus sistemas de pensamento baseadis em ideias vidas do Oriente

Por Alexey Dodsworth


ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Krishna com Radha.São três os principais deuses hindus: Vishnu, Shiva e Brahma. Krishna é considerado a oitava encarnação de Vishnu, deus responsável pela manutenção do universo

Assumindo tal distinção como válida, nota-se a incoerência de chamar os Vedas de "obra capital da Filosofia hindu". Referir-se aos Vedas como "Filosofia oriental" seria diminuí-lo, já que ele se trata de uma suposta revelação divina. E se considerarmos que tal revelação seja possível, como dizer que se trata de mera Filosofia algo que foi revelado por Deus em pessoa? Mais adequado seria se nos referíssemos aos Vedas como um livro teosófico, por se tratar da sabedoria de Deus.

A Filosofia, ao contrário, pertence ao terreno da mera e bela humanidade. Para alguns adeptos da crença em Deus, a Filosofia seria efetivamente algo menor, consistiria no exercício mental de humanos falíveis em busca da verdade. A Teosofia, em contrapartida, pretende revelar uma verdade que já foi encontrada. Mas, para um descrente, obras como os Vedas ou a Bíblia seriam interessantes apenas a partir de um ponto de vista cultural, não consistiriam a verdade revelada, mas tão somente uma interpretação cultural da verdade, verticalmente estabelecida (ou seja, pelos sacerdotes de uma época).

Ainda no terreno das diferenças entre a Filosofia e a Teosofia, podemos dizer que Kant é perfeitamente passível de contestação. Não faltam obras que contradizem Aristóteles. Não é nada difícil demonstrar que Aristóteles estava VIDAerrado em pelo menos um dos seus pensamentos ao achar que os planetas eram globos de éter. Mas como contestar a lei da reencarnação, onipresente em toda obra tradicional da cultura do Oriente? Se a lei da reencarnação surge como uma verdade revelada, tal verdade é indemonstrável, não importa quanta retórica utilizemos para sugerir que é "óbvio e evidente" que nossas almas transmigram de um corpo para outro. Se Espinosa afirma em sua obra filosófica que "quanto mais intenso é o amor, mais intenso será o ódio quando o amor acabar", isso é passível de discussão, confirmação ou mesmo contestação com exemplos. Espinosa não é Deus, nem pretende sê-lo.

"A crença forte só prova a sua força, não a verdade daquilo em que se crê"
NIETZSCHE

Mas se assumirmos como verdadeira (e não como metáfora) a afirmação presente no Vedanta Sutra (obra suplementar dos Vedas) de que aquilo que vemos como sendo a Lua é apenas o aspecto ilusório de um planeta habitado por semideuses da cultura indiana, cuja verdadeira visão está obliterada aos olhos mortais, não há como discutir tal coisa. Podemos apontar todos os telescópios da Terra para a Lua e fotografarmos um deserto árido, e ainda assim nos depararemos com o argumento do seguidor do Vedanta que nos dirá: o deserto é uma ilusão. A Lua é um planeta habitado. A crença numa verdade revelada é superior a toda e qualquer evidência. Entretanto, quem considerar isso como uma tolice supersticiosa há de lembrar que o Ocidente também produz suas (muitas) verdades reveladas: a maioria de nós crê piamente que um determinado homem nasceu de uma mulher que não fez sexo, sendo ele também capaz de metamorfosear a água em vinho, andar sobre as águas e ressuscitar os mortos. Nenhuma dessas capacidades é demonstrável e, assim, que diferença faz se uma cultura crê que existam deuses habitando a Lua ou um deus que tenha caminhado entre nós?

"Um grão de Filosofia dispõe ao ateísmo; muita Filosofia reconduz à religião"
PLATÃO


SHUTTERSTOCK
Alcorão, livro sagrado do islamismo. O saber contido nos livros religiosos é supostamente uma revelação divina, ao contrário do saber filosófico, produto do raciocínio humano

O fato é que, a despeito de alguns gostarem disso e outros nem tanto, o pensamento mítico jamais nos abandonou nem no Oriente, nem no "científico" Ocidente. Alguns filósofos, em especial, deram grande atenção e valor ao pensamento mítico, considerado não como "inferior" ao racional pensamento filosófico, mas como outra forma de pensar. Destaquemos dois desses filósofos: Nietzsche e Schopenhauer. Este foi especialmente dedicado a uma abordagem filosófica do que surge como verdade revelada no pensamento indiano. Em verdade, podemos afirmar que Schopenhauer foi o primeiro filósofo ocidental a revelar abertura em relação às ideias da espiritualidade oriental, com espetacular atenção dada ao Budismo e ao Hinduísmo. E tal abertura foi, muito provavelmente, uma das razões para a falta de valorização em relação à sua obra, já que o meio acadêmico ocidental sempre demonstrou certo preconceito em relação aos conhecimentos do Oriente. De fato, Schopenhauer foi ostracizado em vida por conta de suas afinidades orientalistas.

ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Telescópio espacial Hubble. Verdades reveladas fogem a qualquer contestação lógica. A Ciência, com telescópios que investigam o céu e obtêm evidências, nada vale diante da crença.

Sustentando a tese fenomenista, Schopenhauer argumenta que toda a realidade em torno de nós não passa de representação mental, contudo, tão convincente que cremos nela com toda força. Os Vedas - obra que era do profundo conhecimento de Schopenhauer - dizem exatamente a mesma coisa: o que chamamos de realidade nada mais é do que uma ilusão da mente. Schopenhauer pergunta: "(...) existe um critério seguro para distinguir sonho e realidade?". A esta questão, o próprio filósofo dá sua resposta, alegando que de nada adianta aferirmos à realidade um grau maior de vivacidade do que ao sonho, posto que quando sonhamos tudo aquilo é extremamente real. Deste modo, para Schopenhauer seria totalmente impossível afirmar com certeza que a realidade é tão real quanto se diz. O verdadeiro aspecto das coisas estaria além do alcance de nossa mente limitada. Em sua obra mais famosa, intitulada O mundo como vontade e representação, Schopenhauer denuncia: espaço, tempo e os princípios da causa e efeito condicionam todo conhecimento e, deste modo, jamais nenhum filósofo conhecerá a Verdade, mas tão somente aspectos e representações desta.

RELEITURA DOS VEDAS

A tese de Schopenhauer se trata de uma releitura da tese fundamental dos Vedas: tudo o que sabemos sobre o mundo e o universo é apenas ilusão, fantasia. Todo e qualquer conhecimento é uma construção mental que justifica a si mesma e, deste modo, até a Ciência positivista seria apenas um sistema de crenças que só é mais persuasivo por ser o sistema dominante e vencedor. Muitos anos depois, o filósofo das Ciências Paul Feyerabend fez a mesma denúncia em sua obra capital Contra o método, ao afirmar que a Ciência é apenas uma interpretação válida da realidade, e não a interpretação única. Todas as nossas mais profundas convicções seriam sempre subjetivas e qualquer desejo de objetividade seria pura pretensão autoilusória, até mesmo no campo científico, ainda que tudo nos pareça muitíssimo real.

Vedas é o nome que recebem os quatro textos escritos em sânscrito que formam a base do extenso sistema de escrituras sagradas do hinduísmo.
Contêm, por exemplo, hinos, orações, mágicas e rituais. Como mais antiga literatura de qualquer língua indo-europeia, é importante no estudo dessa linguística e da história antiga indiana.

Saber disso nos ajuda a viver? Algumas pessoas, a partir de tais reflexões, podem afundar no mais crônico niilismo, tornando-se indiferentes à vida, uma vez que ela não passaria de ilusão. Muitas outras mergulham em profunda religiosidade, partindo do pressuposto de que se a Filosofia não passa de uma criadora de representações ilusórias, os livros tradicionais das religiões antigas (a Teosofia) contêm a verdade revelada que só pode ser alcançada a partir do caminho devocional - a fé em sua acepção mais pura. E para tantas outras, ainda que tudo seja ilusório, devemos viver a partir dos limites legítimos de nossa compreensão, e um "salto de fé" não garante absolutamente nada, podendo ser tão ilusório quanto qualquer coisa. E, assim sendo, ainda que a Ciência seja limitada, ela pelo menos é algo que temos como "nosso". Cada um de nós se identificará com uma trilha mais do que outra, e talvez até mesmo com outras não aventadas neste parágrafo.

ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão, encontrou afinidades com a espiritualidade oriental, promovendo ideias presentes nas Vedas, textos sagrados do hinduísmo

A INFLUÊNCIA ORIENTAL

Schopenhauer foi o primeiro filósofo ocidental a admitir abertamente ter bebido da fonte da sabedoria oriental. Mas terá sido um caso único? Ao que tudo indica, não.

Embora o conjunto das mais famosas correntes orientais do pensamento tenda realmente para as verdades reveladas próprias da Teosofia, diversos estudiosos defendem que a Filosofia grega bebeu diretamente da fonte do pensamento oriental. Esta ideia ganhou intensidade no século XIX, e dois dos principais entusiastas da suposta interação entre estas duas culturas foram Karl Wilhelm Friedrich von Schlegel (1772-1829) e Georg Friedrich Creuzer (1771-1858). Ambos identificaram tamanho número de coincidências entre as sabedorias oriental e ocidental que não havia como deixar de pensar numa provável influência principalmente de chineses e indianos em alguns dos mais famosos filósofos da história - o próprio Platão estaria entre os "influenciados".

É preciso, neste ponto, que assumamos uma postura crítica e prudente. O excesso de empolgação e de simpatia pela cultura oriental faz muitas pessoas verem ligações que não existem, forçando interligações onde simplesmente não há. Em contrapartida, uma postura preconceituosa e xenofóbica em relação às culturas orientais, tidas erroneamente como "supersticiosas" também não conduz a um melhor entendimento dos fatos. Ambas as posturas, por serem extremas, se equivocam. Os gregos não foram simples copistas da sabedoria oriental, mas também não há como negar completamente a influência direta da Índia, por exemplo, sobre algumas correntes filosóficas ocidentais.

Tomemos o caso do ceticismo pirrônico como exemplo ilustrativo. A influência direta de pensadores indianos sobre Pirro de Elis, pai do ceticismo, é amplamente documentada, trata-se de fato notório. Pirro não inventou nada de novo. Ele, na verdade, transportou para o Ocidente um sistema filosófico que estudou por dez anos quando morou na Índia, a pedido do próprio Alexandre Magno. Este fato histórico tende a soar chocante para aqueles que, por puro desconhecimento da história da Índia, pensam naquele país como sendo um lugar atrasado e supersticioso. Imaginar que justo o ceticismo nasceu na Índia pode parecer obra de ficção - mas não é. Para melhor compreendermos como isso se deu, é importante explicar alguns pontos fundamentais da cultura indiana, assim como aspectos da sua história.

CONCEITOS DO CETICISMO PIRRÔNICO

Um dos conceitos mais apregoados no ceticismo pirrônico é o da acatalepsia, ou seja, a impossibilidade humana para o conhecimento da real natureza das coisas. Uma vez que toda e qualquer verdade pode ser contradita por outra verdade de igual força argumentativa, seria necessário cultivar uma atitude de suspensão intelectual, chamada epoché.

De acordo com Timon, discípulo de Pirro, a epoché seria uma condição na qual nada pode ser afirmado ou negado absolutamente. Deste modo, a única atitude adequada diante da vida seria a ataraxia, ou tranquilidade absoluta passível de ser atingida apenas por aquele que, em profunda meditação, torna-se refratário às ilusões dos sentidos.




 

ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Lázaro sai de sua tumba, por Juan de Flandes.Milagres bíblicos são exemplos de verdades reveladas. Elas estão ligadas a crenças e não carecem de demonstração de possibilidade

Mesmo na época de Pirro, a população indiana se dividia em cinco grupos: os brâmanes, pertencentes a uma classe elevada, tidos como os sábios; os kchatryas, ou guerreiros; os vaisyas, comerciantes; os sudras, ou servos; e havia também os dalits, o grupo dos intocáveis, impuros ou párias, na verdade nascidos sem casta alguma e a quem se reservavam os trabalhos ditos "imundos", como coletar lixo e cuidar de cadáveres. Ainda hoje existem dalits na Índia, alguns inclusive vêm ao Brasil tentar vida nova e encontram grande dificuldade de adaptação, por não estarem acostumados a serem tratados como iguais por outros seres humanos.

Mas eis que alguns brâmanes se rebelaram contra este sistema de castas - fato deveras interessante, uma vez que num dos raros momentos da história da humanidade quem se rebela não são os inferiores, e sim os pertencentes a uma classe tida como "superior", rejeitando este tipo de divisão entre as pessoas. Rompendo com este paradigma sociológico, alguns dos venerados sábios hindus abdicaram de todo o luxo e adoração que recebiam para vagar pela Índia como ascetas, vivendo como mendigos e meditando totalmente nus ao relento, sob frio e calor intensos. Ao conhecê-los, Alexandre Magno chamou-os de gimnosofistas, termo que em grego significa "sábios do corpo". Discordando totalmente da ideia de predestinação e de que os homens nasceram para viver em castas preestabelecidas, os gimnosofistas também consideravam os deuses hindus como oriundos da imaginação humana, e não como entes reais.

ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Brahma, uma das principais divindades do hinduísmo. Seus quatro filhos teriam originado as quatro castas sociais indianas

Entre os gimnosofistas, merece especial destaque aquele que se tornou o mais famoso de todos: Siddhartha Gautama, mais conhecido como "Buda", no século VI a.C.. Gautama era um príncipe, filho do rei Suddhodana. Ao vislumbrar a miséria que havia fora do palácio, por volta dos 29 anos de idade, Gautama abdicou da vida principesca e se uniu aos gimnosofistas, a fim de buscar a sabedoria. Durante seis anos, Gautama viveu como um gimnosofista: seminu, jejuando e meditando, aplicando ao máximo a extrema disciplina que caracterizava este grupo de ex-brâmanes. Certo dia, porém, Gautama disse ter encontrado a iluminação ao meditar debaixo de uma figueira e passou a ser chamado de "Buda" (do sânscrito "o iluminado"). Tornando-se um poderoso e influente guia espiritual, Gautama abandonou os gimnosofistas e em torno dele foi criada uma das mais tradicionais religiões do mundo. Note-se que, ao dizer ter descoberto a verdade, Gautama rompeu não apenas fisicamente com os gimnosofistas, mas também se desligou da proposta do grupo. A ideia de uma verdade universal estava totalmente em desacordo com a linha de pensamento dos ex-brâmanes, céticos que eram. Em verdade, não havia um grupo homogêneo que pudéssemos chamar de "gimnosofistas". O que havia era uma série de tribos específicas que possuíam traços similares - eram ex-brâmanes, não veneravam deuses, etc. Entre esses grupos, alguns se destacam como sendo muitíssimo similares às correntes filosóficas gregas que surgiram depois: os purana kashyapa, por exemplo, defendiam que a matéria era composta por partículas muito pequenas e sustentavam a existência do vácuo, muito antes de Demócrito. Os lokayata eram assumidamente ateus, e negavam veementemente a existência de deuses. E os amaravikhepika são justamente a fonte de onde muito provavelmente Pirro bebeu para criar seu famoso ceticismo. Para os amaravikhepika, não é possível afirmar nem negar absolutamente nada, pois a verdade não pode ser conhecida, nem mesmo pelo uso dos nossos sentidos, que são enganadores. Por sermos escravos de nossas crenças, o ato de duvidar seria libertador. A dúvida contínua e sistemática seria a única forma honesta de vivermos. Imperturbáveis, os amaravikhepika estavam tão convencidos de que a realidade era uma ilusão que não se rendiam à dor, ao frio ou ao calor, tampouco à fome ou à sede. Os faquires até hoje se valem de técnicas e de uma disciplina que vêm desta herança metodológico-meditativa criada pelos gimnosofistas.

"Há muitas razões para duvidar e uma só para crer"
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

 

ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Um faquir em Benares, foto de Herbert Ponting (1907). Gimnosofistas, sábios hindus que se rebelaram contra as castas, formaram grupos, entre eles, os amaravikhepika, que consideravam a realidade uma ilusão - foi de onde Pirro provavelmente tirou subsídios para criar o ceticismo. Eles não se abalavam com dor, frio ou fome e suas técnicas são utilizadas até hoje pelos faquires

A documentação histórica da influência oriental na construção do ceticismo pirrônico é feita por Diógenes Laércio, ao reportar que Pirro de Elis estudou por dez anos com os sábios indianos enquanto viajava pela Índia com Alexandre Magno. Ao retornar à Grécia, Pirro passou a ter um estilo de vida condizente com o de seus mestres gimnosofistas, e era tido como tão sábio e disciplinado que conquistou o amor dos atenienses, assim como deles recebeu uma oferta de cidadania. Note-se que, em profunda afinidade com os hábitos dos gimnosofistas, Pirro nada escreveu - a palavra escrita era considerada apenas uma forma de criar novos livros carregados de "pretensão da verdade". Deste modo, a doutrina cético-pirrônica é conhecida pelos escritos de um pupilo de Pirro, chamado "Timon, o silógrafo".

Esses sábios indianos tinham comportamento iconoclástico e não se impressionavam com autoridade alguma. Conta-se que Alexandre Magno, impressionado com a sabedoria desses gimnosofistas, lhes propôs uma vida cheia de regalias na Grécia. Totalmente desinteressados, os gimnosofistas chegaram a ser ameaçados por Alexandre, e demonstraram absoluto desprezo diante da possibilidade da morte, chegando a escrever como resposta: "(...) tu, chamado Alexandre, podes remover nossos corpos de um lugar para outro, mas não podes forçar nossas mentes a fazer o que não estão dispostas a fazer, não mais do que podes tu fazer falar às pedras e às árvores. Um grande incêndio causa dor ardente em corpos vivos e os destrói; nós, porém, estamos acima disso, pois somos queimados vivos e não ligamos. Nenhum rei ou príncipe pode nos chantagear a fazer o que não nos determinamos a fazer. Tampouco somos como os filósofos da Grécia, que estudaram palavras em vez de atitudes, a fim de angariarem para si nome e reputação. (...) Gozamos de uma bem-aventurada liberdade na virtude." Restou a Alexandre, enfim, concordar com a utilização de Pirro de Elis como aprendiz dos gimnosofistas como forma de transportar a doutrina desses homens para o Ocidente. Terá sido este um caso único? Muitos pesquisadores apostam numa influência oriental sobre Sócrates e Platão, mas nada foi tão bem documentado e descrito como o caso do ceticismo de Pirro de Elis. O resto é apenas especulação. E embora muito se especule - fantasiosamente, em grande parte das vezes - para a maioria dos estudiosos da cultura oriental é fato incontestável que a Filosofia deve muito de seu saber às fontes misteriosas, míticas e notáveis do Oriente antigo.

ART RENEWALL INTERNATIONAL
O sonho de Elijahs, de Philippe De Champaigne. Schopenhauer, assim como os Vedas (textos sagrados do hinduísmo), afirma que a realidade é uma ilusão, uma representação criada pela mente. A realidade não teria maior vivacidade do que o sonho

Para Radha Vitória, que escolheu o caminho da fé e da devoção, com gratidão pelos conhecimentos generosamente partilhados e contidos neste artigo.

ABORDAGEM CRÍTICA PARA O CONHECIMENTO

Nem todos concordam que os ditos livros sagrados devem ser aceitos sem questionamento. Bhaktivinoda Thakura, um erudito da cultura védica, escreveu o seguinte, 300 anos atrás:

"O conhecimento é como o Sol, enquanto que todas as escrituras são somente seus raios. Nenhuma escritura em particular poderia possivelmente conter todo o conhecimento. As compreensões particulares (svatah siddha-jnana) das 'jivas' são a base de toda escritura. Estas compreensões deveriam ser reconhecidas como sendo dádivas da personalidade de Deus.

Os 'rishis' perceptivos obtiveram este conhecimento autoevidente diretamente do Brahman Supremo e o transcreveram para o benefício de outras jivas. Uma fração deste conhecimento tomou forma como o Veda. A alma condicionada é aconselhada a estudar o Veda com a ajuda de todas estas explicações.

Mas mesmo com a ajuda destas explicações, ele ainda assim deveria examiná-las (as escrituras) à luz de seu próprio conhecimento autoevidente (ou compreensão pessoal), porque os autores destas literaturas explanatórias e comentários não são sempre claros em seus significados. Em alguns casos, os comentadores confessaram ter dúvidas sobre sua própria compreensão.

Portanto, faz-se necessário cultivar conhecimento à luz da própria compreensão individual. Esta é a regra que governa o estudo das escrituras. Sendo que o conhecimento nascido de uma compreensão pessoal é a raiz de todas as escrituras, como podemos esperar obter benefício ignorando isto e dependendo exclusivamente das escrituras, que são os ramos que crescem a partir desta raiz?"

Em suma, Bhaktivinoda Thakura defende uma abordagem filosófica das obras teosóficas capitais da cultura védica, rompendo assim com a ideia de uma "receptividade passiva" que nada questiona.

Vocabulário:

Rishi - no texto de Thakura, assume o significado de "indivíduos capazes de receber o conhecimento diretamente de Deus".
Jiva - "vida"; no texto, assume o sentido de "almas", "pessoas vivas".


REFERÊNCIAS

DERRIDA, Jacques. Margens da Filosofia. Lisboa: Rés, 1986

MOORE, Charles (org.). Filosofia: Oriente, Ocidente. Edusp, Cultrix, 1979

PLUTARCO. Alexandre, o Grande. Ediou­ro, 2004

LAÉRCIO, Diógenes. Vidas, doutrinas e sentenças de filósofos ilustres. UNB, 1988

PORCHAT, Oswaldo. Rumo ao ceticismo. Unesp, 2007

SIDHARTH, B. G. The celestial key to the Vedas. Inner Traditions, 1999

SHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação. Unesp, 2005

 

http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/39/artigo152430-7.asp

 

 

--
Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "Todos que Passaram pelo Seminario Teologico Batista Guarulhos e tem muito amor e conteudo a repartir" dos Grupos do Google.
Para postar neste grupo, envie um e-mail para stbguarulhos@googlegroups.com.
Para cancelar a inscrição nesse grupo, envie um e-mail para stbguarulhos+unsubscribe@googlegroups.com.
Para obter mais opções, visite esse grupo em http://groups.google.com/group/stbguarulhos?hl=pt-BR.

Nenhum comentário:

Postar um comentário