A Internet é um veículo democrático com participação popular ou é mais um meio de dominação das massas e alienante? Será que já é possível ter a dimensão disso? Veja o comentário sobre o assunto com base na Dialética do Esclarecimento e na Escola de Frankfurt
Por João E. Neto
| João E. Neto é doutorando em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), jornalista pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e membro do Grupo de Estudos Nietzsche (GEN) |
Na década de 1940, a cultura de massa foi um dos temas centrais nos questionamentos de alguns pensadores que integraram o movimento batizado como Escola de Frankfurt. Um dos frutos dessa reflexão foi o ensaio A Indústria Cultural: O Esclarecimento como Mistificação das Massas, trabalho elaborado por dois dos principais integrantes do movimento, Theodor W. Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973). Nesse texto - publicado no livro Dialética do Esclarecimento (1947) -, os pensadores se esforçaram em evidenciar o caráter controlador e mercantil da indústria cultural - termo cunhado pelos autores. Para Adorno e Horkheimer, os produtos dessa indústria seriam parte integrante de uma lógica que visava, ao mesmo tempo, padronizar os indivíduos e gerar lucro para os detentores do poder econômico. Este ensaio dos frankfurtianos - que, ainda hoje, se constitui como referência decisiva nas pesquisas sobre a cultura de massa - teve como objeto de estudo os meios e produtos da indústria cultural da primeira metade do século XX. Nesse período, o predomínio era do rádio, do cinema e das revistas ilustradas - a televisão ainda estava se estabelecendo como meio massivo, mas já era apontada por esses pensadores como uma possível potencializadora da atuação e dos efeitos da indústria cultural. Atualmente, além desses meios mais tradicionais, um novo e gigantesco fenômeno da comunicação se faz presente: a Internet. Com a inserção desse elemento no cenário comunicativo contemporâneo, uma questão vem à tona: o que diriam nossos autores acerca da Internet?
Conforme os dados divulgados pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), cerca de 1,5 bilhão de pessoas utilizam a Internet em todo mundo. Esse total é resultado de um contínuo e expressivo aumento no número de internautas a cada ano. Para se ter uma ideia, entre 2000 e 2008, a quantidade de usuários da web cresceu em 290% - um percentual que não é superado por nenhum outro meio de comunicação de massa. No Brasil, por exemplo, uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) apontou que, já em 2007, a venda de computadores no País - que hoje é o 5º com o maior número de conexões à Internet - superava a de televisores. Foram 10,5 milhões de computadores contra 10 milhões de televisões. Diante disso, não podemos ignorar a abrangência e o poder de comunicação da Internet na atualidade. No entanto, acreditamos que é necessário interrogar qual tem sido o papel sócio-cultural desse novo fenômeno de comunicação: a Internet tem contribuído para a emancipação do homem ou é mais um instrumento destinado ao controle e à alienação dos indivíduos?
A Teoria Crítica
Seria um equívoco entender a Escola de Frankfurt como um movimento unilateral em que seus integrantes seguem uma doutrina determinada e homogênea. No entanto, é possível afirmar que a Teoria Crítica conferiu uma unidade metodológica a esse grupo de pensadores. Conceitualizada inicialmente por Horkheimer no artigo Teoria tradicional e Teoria crítica (1937), a Teoria Crítica consiste numa maneira de pensar que adota o movimento histórico como fio condutor de seu proceder especulativo. Ou seja, para os pensadores de Frankfurt, a reflexão teórica teria de estar em consonância com as transformações sociais dos diferentes momentos históricos. Portanto, pensadas a partir desse paradigma, as teorias filosóficas não poderiam ser concebidas como um arcabouço estático e absoluto, mas deviam ser entendidas como estando, elas mesmas, inseridas no fluxo temporal. Cada situação histórica exigiria uma reformulação intelectual que acompanhasse as modificações do tempo.
Além dessa "exigência histórica", a Teoria Crítica tem outra característica distintiva muito peculiar: o posicionamento interventor em relação à sociedade contemporânea. Ao contrário do cientista tradicional - que prima por uma pretensa isenção em relação ao objeto de estudo - o teórico crítico assume um papel atuante frente à realidade por ele estudada, pois tem como objetivo propor uma transformação social que propicie a emancipação racional do indivíduo. Se a Ciência tradicional tem como meta um conhecimento puro, isento e afastado da ação transformadora, a Teoria Crítica propõe um saber modificador desse mesmo objeto. Seguindo esse raciocínio, podemos dizer não apenas que as condições histórico-sociais se apresentavam como força determinante para a elaboração das teorias (característica apontada no parágrafo anterior), mas que o pensamento teórico também poderia e deveria atuar como agente transformador dessas mesmas condições (característica apontada neste parágrafo). Enfim, tomando o pensamento de Marx (1818-1883) como premissa, - "Os filósofos limitaram-se até agora a interpretar o mundo de diferentes maneiras. O que importa é mudá-lo" (MARX, Karl Teses sobre Feuerbach. Tese nº11) - o teórico crítico deveria assumir um papel transformador e orientar a ação política em direção à emancipação humana.
Se levarmos em consideração esses fundamentos da Teoria Crítica, a Internet, um dos mais relevantes fenômenos culturais de nossa época, não poderia escapar da reflexão crítica. Levando isso em conta, examinemos, primeiramente, qual é a principal questão da Dialética do Esclarecimento e, depois disso, vejamos como podemos pensar a Internet através dos referenciais oferecidos por essa obra.
| Prometeus,a revolução da mídia
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Crítica ao iluminismo
A Dialética do Esclarecimento tem como principal objetivo questionar o "projeto iluminista" do século XVIII; por esta razão, a crítica endereçada à indústria cultural deve ser compreendida a partir desse diálogo dos pensadores frankfurtianos com o Iluminismo.
Grosso modo, podemos dizer que o ponto de partida do Iluminismo é uma extrema confiança no poder da razão esclarecida, cujo desenvolvimento progressivo levaria a humanidade a uma melhoria de condições sociais, políticas, morais e materiais. Os conhecimentos científicos e técnicos, fruto dessa razão esclarecida, serviriam como ferramentas para promover a caminhada da civilização ao progresso. No mesmo sentido, esse desenrolar progressista da razão também conduziria os homens à libertação em relação aos mitos, superstições, dogmas e tiranias. Assim sendo, somente através do pensamento esclarecido é que a humanidade chegaria à maturidade, pois o homem emancipado seria um sujeito autorreflexivo e guiado por seu próprio intelecto.
Em a Dialética do Esclarecimento, entretanto, Adorno e Horkheimer colocaram em xeque esse otimismo iluminista em relação à razão esclarecida e ao contínuo progresso material e espiritual da humanidade. Para esses pensadores, o que assistimos na contemporaneidade não é uma real melhoria das condições culturais e materiais, mas uma degradação e tutelagem da humanidade. E, nesse sentido eles interrogaram: O que teria levado o projeto iluminista ao fracasso? "Por que a humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está se afundando em uma nova espécie de barbárie"? (DE, p.11). Por que "a terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal"? (DE,p.17). No entender dos frankfurtianos, essas questões deveriam ser respondidas a partir de um exame do próprio esclareci- mento, pois nele já estaria contido o germe de seu fracasso - no Iluminismo haveria um elemento obscurantista exercendo uma contínua contradição no seu caminhar.
Para Adorno e Horkheimer, a relação que a razão iluminista estabeleceu com a natureza foi uma relação de dominação e controle. Inspirados por Francis Bacon (1561-1626) e René Descartes (1596-1650), os Iluministas aspiravam que o homem, através da Ciência e da técnica, se tornasse "mestre e senhor da natureza". Ou seja, fazendo uso do experimento científico e matematizando os fenômenos na- turais, o ser humano poderia desvendar os segredos do mundo e, assim, dominá-lo. O homem deveria se tornar um sujeito conhecedor e dominador, enquanto que o mundo teria de ser o objeto a ser conhecido e dominado. Influenciados principalmente pelo pensamento de Freud (1856-1939) e Nietzsche (1844-1900), os frankfurtianos afirmam que essa tendência iluminista de dominação do mundo seria, no entanto, fruto do medo de desintegração do sujeito frente aos desconhecidos perigos da natureza.
| Escola de Frankfurt ou instituto de pesquisa social? |
| Adorno e Horkheimer, os grandes expoentes da chamada Escola de Frankfurt. Para eles, não estamos diante de uma cultura de massa; assistimos - inertes - ao desfile dos produtos da indústria cultural |
| A Internet favorece a transmissão acelerada de informações, e seu mecanismo técnico permite que um maior número de pessoas possa tomar parte no processo de difusão de informações. Todavia, essa facilidade não significa desenvolvimento da cultura, e pode muitas vezes manter a sociedade alienada de sua própria realidade |
Conservação do "EU"
O caráter desbravador e controlador da Ciência e da técnica teria sua origem no medo da perda do "eu" frente às forças naturais. Para Adorno e Horkheimer, entretanto, essa tendência e preocupação de conservação do "eu" através da dominação da natureza não teria sido inaugurada pelos iluministas - nem por aqueles filósofos do século XVII (Bacon e Descartes) -; esse impulso já estaria incrustado na aurora da civilização ocidental, podendo, inclusive, ser percebido já nos textos mitológicos.
Para ilustrar esse posicionamento, nossos autores recorreram a um episódio do canto XII da Odisseia. Nesse trecho, Homero relata um dos perigos pelo qual Ulisses deve passar para poder chegar à Ítaca, sua terra natal. O risco em questão é o sedutor canto das sereias, cuja beleza atrai os navegantes, fazendo com que estes se atirem ao mar e morram afogados. Ulisses, entretanto, é avisado sobre essa ameaça e planeja uma forma de, ao mesmo tempo, escutar o canto das sereias e escapar da morte. O que faz Ulisses? Veda os ouvidos de seus marinheiros com cera e pede para ser amarrado no mastro do navio para que possa ouvir o fascinante canto sem, no entanto, atirar-se ao mar.
Os marinheiros escapam da morte, mas não escutam o canto da sereia. Ulisses, por outro lado, usa a razão como instrumento para controlar seus impulsos naturais e consegue, ao mesmo tempo, ouvir o canto das sereias e escapar da morte. É justamente no uso que Ulisses faz da razão que Adorno e Horkheimer enxergam nele o germe da razão iluminista, a saber, uma razão que, através do controle racional da natureza exterior e interior, tenta preservar o "eu".
Subjacente ao mito já estaria o "desejo iluminista" de dominar e fixar o mundo através de artifícios e categorias racionais. O Movimento Iluminista seria, dessa forma, uma derivação de uma tendência primitiva de nossa cultura, uma angústia proveniente do medo do desconhecido. Desse "medo o homem presume estar livre quando não há mais nada de desconhecido", quando ele, através de sua razão esclarecida, consegue desvendar e controlar a natureza (DE, p.26).
| A temática de Odisseu é problematizada por Adorno e Horkheimer na Dialética do Esclarecimento. Odisseu, preocupado com o encantamento produzido pelo canto das sereias tampa com cera os ouvidos da tripulação de sua nau. Ao mesmo tempo, o comandante Odisseu, ordena que o amarrem ao mastro para que, mesmo ouvindo o cântico sedutor, possa enfrentá-lo sem sucumbir à tentação das sereias |
| Reprodução da lata de sopa Campbell, renomada obra da Pop Art (Andy Warhol), em que os paradigmas da obra de Arte singular são rompidos, pela possibilidade de se criar obras de Arte em série. A elaboração dos produtos culturais fica sob o encargo dos técnicos das empresas de entretenimento da indústria cultural |
Razão para dominação
A razão, no paradigma iluminista, seria usada como um instrumento de domínio que serve para preservar o sujeito, ou seja, seu caráter é predominantemente pragmático, ela é uma ferramenta que tem como finalidade a conservação do "eu". Entretanto, é nesse predomínio do caráter pragmático da razão que Adorno e Horkheimer enxergam o fracasso do projeto iluminista. Para eles, a razão ocidental, ao se converter em instrumento, teria perdido sua atitude reflexiva: "o esclarecimento pôs de lado a exigência clássica de pensar o pensamento" (DE, p.33). Ao perder a autorreflexão por medo de desintegrar o "eu", a razão instrumental já estaria perdendo, de antemão, a possibilidade de um "eu" emancipado. A dinâmica do esclarecimento - que tinha como objetivo livrar os homens das amarras da superstição - acabou por fazer a humanidade "retornar" a uma nova superstição.
Para os autores frankfurtianos, essa razão de caráter instrumental - que chega ao seu apogeu na sociedade capitalista - não pode ser pensada como estando destacada de suas condições históricas.
Os progressos científicos e as descobertas tecnológicas, que trouxeram a possibilidade de enfrentar os infortúnios da natureza, não poderiam ser desligados das condições e interesses econômicos de nossa época - lembremos que a metodologia crítica defende a relação multilateral entre as condições econômicas e a cultura. Ou seja, a Ciência e a tecnologia não se desenvolvem de uma maneira isenta como defende a teoria tradicional, mas elas são preponderantemente direcionadas pelas exigências do sistema capitalista. Nesse sentido, a razão instrumental converte-se numa ferramenta adaptada ao mecanismo econômico vigente em nossa sociedade: "a própria razão se tornou um mero adminículo da aparelhagem econômica que a tudo engloba. Ela é usada como um instrumento universal servindo para a fabricação de todos os demais instrumentos" (DE, p.37).
Funcionalizada, a razão perde grande parte de seu caráter reflexivo, tornando-se um mero "aparelho" de estruturação e controle a serviço do capitalismo.
De fato, os avanços técnico-científicos, a divisão racional do trabalho, a maquinaria das indústrias e o aumento da produtividade - resultados da razão instrumental - proporcionaram as condições efetivas para uma melhoria material. Por outro lado, além de não ter efetivado um significativo avanço social, toda essa estrutura técnico-econômica coagiu o indivíduo a se adequar totalmente a ela própria. Integrado ao processo de produção, o trabalhador se transformou numa simples peça da engrenagem econômica. Se por um lado o proletário tem sua sobrevivência assegurada por esse mecanismo, por outro lado sua individualidade se esvai quando ele reverte todas as suas potencialidades físicas e intelectuais para se amoldar à aparelhagem técnico-econômica. O homem se aliena de seu "eu" através do próprio aparato que criou para garantir a sobrevivência desse mesmo "eu".
Assim, o caráter reflexivo da razão, que distinguia a atividade humana da atividade do animal, é subtraído do intelecto, pois "o pensamento cegamente pragmatizado perde seu caráter superador" (DE, p.13). "O eu integralmente capturado pela civilização [sob o signo da razão instrumental] se reduz a um elemento [de] inumanidade" (DE, p.37). Situando-se no mesmo patamar de uma ferramenta, o homem perde seu caráter singular e se transforma num mero componente de uma massa amorfa e controlada.
| Internet versus capitalismo |
A indústria cultural
No entender de Adorno e Horkheimer, a indústria cultural é um fenômeno que está totalmente integrado à razão instrumental que vigora no capitalismo contemporâneo. Isso porque a indústria cultural compartilharia da mesma lógica que ignora os indivíduos em sua singularidade. Voltados ao lucro, os meios de comunicação da indústria cultural produzem a partir dos resultados oferecidos pelos institutos de pesquisa. Ou seja, a lógica que guia a indústria cultural é a da racionalidade que enxerga o homem como número estatístico e não como indivíduo: "reduzidos a simples material estatístico, os consumidores são distribuídos nos mapas dos institutos de pesquisa" (DE, p.102). Assim, no capitalismo contemporâneo, quando o homem assume o papel de trabalhador, ele é reduzido à ferramenta e, quando assume o papel de consumidor cultural, ele é reduzido a número.
O que é produzido visa acatar às exigências numéricas dos diferentes níveis de consumo cultural. E é aqui que o termo "indústria" faz sentido, pois ele diz respeito à racionalização da produção dos "bens culturais" que devem atender os resultados das estatísticas. Nesse sentido, o planejamento da produção implica numa padronização orientada a suprir essa demanda e não, como na obra de Arte, às demandas da singularidade do artista. A referência para produção da "obra" da indústria cultural não é a singularidade do artista, mas as exigências dos níveis das massas - estas, previamente manipuladas. Por conseguinte, a elaboração dos produtos culturais fica sob o encargo dos técnicos e diretores das empresas de entretenimento e comunicação da indústria cultural. Estes, por sua vez, têm como referência não o valor artístico do produto, mas sua possibilidade de lucro e comercialização. Assim sendo, o que julga o que deve ser produzido é o lucro e não a singularidade do artista. A consequência imediata dessa fórmula é a padronização dos "produtos", dos "produtores" e dos "consumidores". No lugar de indivíduos autônomos - promessa iluminista - temos, entretanto, uma massa homogênea e integrada à ordem social vigente - uma ordem que iguala ao afastar a autorreflexão.
Outra característica da Indústria cultural levantada pelos autores é o caráter unilateral de seus produtos. Ou seja, a comunicação é feita de cima para baixo, não abrindo espaço para muita interatividade - apesar da atual e excessiva preocupação em demonstrar uma suposta interatividade. O rádio, por exemplo, "transforma a todos igualmente em ouvintes, para integrá-los autoritariamente aos programas [...] Não se desenvolveu qualquer dispositivo de réplica e as emissões privadas são submetidas ao controle" (DE, p.100). É nesse ponto, entretanto, que a Dialética do Esclarecimento deve ser submetida às premissas de seu próprio marco teórico: a Teoria Crítica. Como dissemos, uma das premissas da Teoria Crítica consiste em entender o pensamento teórico como vinculado ao fluxo histórico - o pensador crítico deveria estar sempre em conexão com as transformações de seu tempo. Portanto, o pensamento crítico deve se questionar e examinar esse novo meio massivo que contraria completamente a noção dos meios massivos como sendo constituídos de um caráter que exclui a interatividade. A Internet, em sua essência, é interativa.
| Imagem da época da Recessão norte-americana, nos anos 1930. O outro lado do Capitalismo: o american way of life não é para todos |
Só a partir de 1991, com da criação do sistema de hipertexto World Wide Web - o conhecido "WWW", idealizado pelo pesquisador inglês Berners-Lee - é que a Internet começou a se popularizar. Com as facilidades desse sistema, a rede deixou de ser uma ferramenta restrita apenas a cientistas e militares.
Através do "mecanismo" de endereços e links (do inglês: ligação), praticamente qualquer pessoa teve a possibilidade de utilizar a Internet e saltar de uma página à outra. Essa facilidade de uso provocou uma maior acessibilidade que, por sua vez, proporcionou à Internet uma "audiência" massiva. Apesar de, nesse quesito, se assemelhar aos meios de comunicação de massa tradicionais, a web, entretanto, possui uma relevante característica distintiva frente a eles: sua essência é a interatividade. Diferente dos meios massivos mais antigos, a Internet não é algo restrito a empresas com grande porte econômico, pois para se fazer presente na rede não é preciso expressivos investimentos materiais - se comparados aos gastos de aparelhagem e logística de uma emissora de televisão, os custos para se expressar na Internet são praticamente nulos. A web permite que um usuário com um mínimo de recursos econômicos monte diversos perfis no Orkut, blogs no Facebook, no MySpace, no Twitter e, com isso, se comunique com milhões de pessoas em todo o mundo.
| O modelo fordista de produção em série fez com que o trabalhador se tornasse uma simples peça da engrenagem econômica. Neste processo, a individualidade do trabalhador se esvai quando reverte suas potencialidades físicas e intelectuais para se amoldar à aparelhagem técnico-econômica |
Na rede, o indivíduo comum não é apenas um mero receptor - como no rádio e na TV - mas é um emissor e agente efetivo no processo comunicativo. Os blogs (diário pessoal ou informativo eletrônico interativo), por exemplo, proporcionam o debate entre autor e leitor, favorecendo uma maior paridade comunicativa entre emissor e receptor. Vale dizer, inclusive, que na Internet, por vezes, o indivíduo comum passa a ser mais atuante do que as grandes empresas. Alguns blogs criados por iniciativa autônoma, por exemplo, superam a audiência de páginas de tradicionais gigantes da comunicação. Levando esses fenômenos em conta, podemos afirmar que a Internet não tem, por enquanto, uma característica tão monopolista quanto os meios tradicionais, pois possibilita a expressão das individualidades no mesmo terreno em que o grande capital realiza sua publicidade. Apesar de desigual, a concentração do poder comunicativo na rede é muito menos díspar do que na TV ou no rádio, onde temos um poder unilateral centrado num número diminuto de empresas.
A Internet é um veículo democrático com participação popular ou é mais um meio de dominação das massas e alienante? Será que já é possível ter a dimensão disso? Veja o comentário sobre o assunto com base na Dialética do Esclarecimento e na Escola de Frankfurt
Por João E. Neto
| A comunicação na era da Internet favorece, por um lado, a divulgação dos bens culturais em uma escala inimaginável, pautando-se no princípio de que qualquer um pode se tornar um difusor de informações e interagir de forma imediata na rede. Mas, utilizada de forma indiscriminada, pode se tornar um mecanismo de afastamento do homem em relação ao mundo externo, substituído pela imagem asséptica da tela do computador |
Poderíamos dizer, então, que a web permitiu a expressão do "eu" no ambiente comunicativo de massa - antes, esse "eu" era totalmente sufocado pelos meios massivos tradicionais. Não podemos deixar de frisar, no entanto, que essa expressão se dá, muitas vezes, de uma maneira padronizada. O "eu" que se faz aparecer nos pefis do Orkut, do Facebook e em fotologs, na grande maioria das vezes, é um "eu" já adequado a uma linguagem comportamental homogeneizada. Isso porque nos sites de relacionamento, a individualidade tem de obedecer a uma estrutura estabelecida, de antemão, por uma instância exterior.
Nesse sentido, não é casual que cada página do Orkut seja muito parecida com as demais, pois, neles, temos uma individualidade moldada por um mecanismo técnico que limita a autenticidade do "eu" - na maioria das vezes, a linguagem é padronizada, os comentários são semelhantes e o formato das páginas é igual. É bom ressaltar que não é nossa intenção demonizar os sites de relacionamento, o que queremos é chamar a atenção para o perigo de tomarmos a Internet como uma ferramenta totalmente libertadora e promotora da emancipação do indivíduo. O caráter da rede ainda é muito ambíguo: em alguns momentos parece fazer parte do mecanismo de controle das massas, em outras ocasiões parece se opor à ordem estabelecida.
Se, por um lado a Internet faz surgir novos mercados monopolistas, por outro lado tem levado antigos paradigmas do capitalismo à falência. A Internet padroniza indivíduos numa técnico-linguagem homogeneizante, mas também possibilita a expressão de singularidades que não tinham voz na antiga estrutura da comunicação. Para alguns novos autores de influência teórico-crítica, essa ambiguidade da web só existe porque a Internet não é, ainda, um "terreno" totalmente dominado pelo grande poder econômico. Adotando a atitude interventora da proposta frankfurtiana, esses autores enxergam a rede como um campo de batalha em que o território deve ser disputado palmo a palmo. Aqui, vale destacar o posicionamento do Critical Art Ensemble - coletivo de ativistas críticos que propõem um uso subversivo das novas tecnologias: "a autoridade que se localiza no campo eletrônico deve ser combatida através da resistência eletrônica. [...] A resistência ao poder nômade deve se dar no ciberespaço e não no espaço físico". (Critical Art Ensemble. Distúrbio eletrônico. p.33).
| Um resultado dos tempos virtuais que vale registro é a experiência do OhmyNews, agência de notícias sul-coreana que tem como lema "Cada cidadão é um repórter" - parte da pagina de notícias da agência é constituída por artigos e matérias de leitores |
Formado por artistas e pensadores de esquerda, Critical art Ensemble sugere uma interseção entre Arte, Teoria Crítica, tecnologia e política radical, pois, para eles, "a nova geografia é uma geografia virtual, e o núcleo de resistência política e cultural deve se firmar nesse espaço eletrônico". (Distúrbio eletrônico. p. 11). Nesse sentido, esses novos autores propõem uma adequação histórica da teoria crítica à atualidade. Se, para Adorno e Horkheimer, os meios de comunicação massivos eram apenas alvos de críticas, para o Critical art Ensemble, as novas tecnologias servem como armas para combater o capitalismo. A intenção seria usar a Internet como meio de subversão do próprio sistema econômico em que ela está inserida. E, aqui, podemos perceber, realmente, uma grande modificação em relação aos autores da Dialética do Esclarecimento. A crítica efetuada por Adorno e Horkheimer aos meios massivos tradicionais era feita de fora. Ou seja, enquanto tínhamos alguns intelectuais falando para um grupo resumido de pessoas havia, ao mesmo tempo, os dirigentes e produtores da TV controlando milhões de consciências - era um "diálogo" muito mais desigual e unilateral. No entender do Critical art Ensemble, a interatividade da Internet insere, entretanto, um novo dado, pois possibilita a realização de um combate no próprio seio da comunicação de massa.
Resultado do caminhar dialético da razão, a Internet está inserida nesse conflito da razão esclarecida consigo mesma. A web não foi, por enquanto, totalmente definida como ferramenta de alienação ou emancipação. Ela é, ainda, uma questão de disputa entre o esclarecimento e o obscurantismo - dois pólos conflituosos e constitutivos da razão humana. Para encerrar, vejamos o que afirma e propõe o Critical art Ensemble: "O mundo eletrônico [...] não está de forma alguma estabelecido, e está na hora de tirar vantagem desta fluidez através da criação. Antes que nos reste apenas a crítica como arma" (Distúrbio eletrônico. p.33).
| Sites de relacionamento e blogs, expressões típicas pós-modernas. A grande característica desses recursos consiste na possibilidade de interação imediata entre todos os participantes, tornando cada um figura ativa no processo comunicativo. Por outro lado, o "eu" que se faz aparecer no Orkut, Facebook e fotolog, na grande maioria das vezes, é um "eu" já adequado a uma linguagem comportamental homogeneizada |
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