"Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos" Lc 7:35
Em primeiro lugar, agradeço-lhe a consideração de ler, analisar e comentar o meu artigo do Cinco Solas. Não tenho condições de uma resposta completa e nem pretendo ter a palavra final, mas por ora faço algumas considerações ao artigo "Reafirmo: sem liberdade, a verdade não aparece". Escrevo num tom pessoal, dirigindo-me na primeira pessoa ao irmão para não parecer que haja alguma animosidade em minhas palavras.
Para não nos perdermos em mal entendidos, permita-me pontuar, primeiramente, aquilo que concordo em seu arrazoado. Creio que apesar da imagem de Deus no homem ter sido seriamente afetada pela Queda, não foi totalmente destruída. Também concordo que o homem é dotado de vontade e que efetivamente a usa. Também não nego que o homem, no uso dessa vontade, faça escolhas morais livres, no sentido de que não é coagido por nada fora de sua natureza quando escolhe.
Porém, sem entrar nos detalhes das ressalvas que faço, afirmo que a conexão entre livre-arbítrio e imago Dei é mais um pressuposto arminiano não provado e que o exercício da vontade no homem caído é incapaz de escolher o bem antes ou à parte da graça. Assim, diante de escolhas como a referida em Dt 30:19 o homem é livre para escolher de acordo com sua vontade, mas sem a assistência da graça, só escolherá a morte e a maldição, como demonstra a história que se seguiu.
Em segundo lugar, não vou discutir a relação entre liberdade e verdade. Está claro que a Verdade, que é Cristo liberta, e até que Ele o faça, o homem é livre apenas para pecar, como uma pedra é livre para cair. Qualquer palavreado que exalte a liberdade antes, sem ou acima da verdade, não passa disso. E havendo verdade, vive-se a liberdade. Ponto.
Em terceiro lugar, com relação às traduções e versões que lançamos mão para analisar a passagem bíblica, reconheço que prefiro e uso as baseadas no texto recebido ao invés do texto crítico e que dou mais crédito às traduções que seguem o método da equivalência formal ao invés das traduzidas pela equivalência dinâmica. Não tenho capacidade de justificar essa minha escolha, exceto que nas vezes que comparei, pareceu-me que as traduções por equivalência formal resultaram traduções mais literais e fiéis, ainda que às vezes menos elegantes.
Na passagem em apreço, continuo e estou ainda mais convicto quanto à tradução de "ηθετησαν εις εαυτους"/"ethétesan eis heautoús", como "rejeitaram quanto a si mesmos" e "rejeitaram contra si mesmos". Nessa posição acompanho estudiosos como Matthew Henry, John Bonde, Manson, Black e Marshall, que não ligam heautoús a boulén e dão o sentido de "para sua própria perda" à expressão.
O termo do qual deriva ethétesan não é comum no Novo Testamento, ocorrendo apenas 16 vezes. Os léxicos trazem como significado "recusar reconhecer a validade de alguma coisa, considerar como inválida" (Low and Nida), "agir em relação a alguma coisa como se tivesse sido anulada" (Thayer), "violação da lei ou mandamento de Deus" (Kittel), "colocar como de nenhum valor, agir no sentido da coisa como se fosse anulada" (Vine) e "tornar vã, através da desobediência". Nas diversas ocorrências no Novo Testamento é traduzido (ACF) "negar" (Mc 6:9), "invalidar" (Mc 7:9), "rejeitar" (Lc 7:30; 10:16; 1Ts 4:8; Jo 12:48; Jd 1:8), "aniquilar" (1Co 1:19; Gl 2:21; 1Tm 5:12) e "quebrantar" (Hb 10:28). Parece-me que quebrantar e aniquilar não caberiam em Lc 7:30, bem como negar (no contexto, voltar atrás), restando invalidar e rejeitar como traduções possíveis para o termo. E entre "rejeitar ou recusar fazer a vontade de Deus" e "impedir o propósito que Deus tinha em mente fazer", creio que a primeira coaduna-se com o contexto e o ensino geral das Escrituras, conforme referido no parágrafo anterior.
A preposição eis e o pronome reflexivo heautoús devem ser estudados em conjunto. Eis indica "para" ou "para dentro", tendo em referência um ponto a ser alcançado. É o antônimo de ex, "para fora". Heautoús"É usado na terceira pessoa do singular e plural para denotar que o agente e a pessoa que sofre a ação são as mesmas" (Thayer). No Novo Testamento são 63 ocorrências da combinação eis e heautoús, indicando uma ação reflexiva. Por exemplo em Lucas temos "prejudicar-se a si mesmo" (9:25), "dividido contra si mesmo" (11:17), "confiavam em si mesmos" (18:9), "o que a si mesmo se exaltar será humilhado" (18:14), etc. significa "si mesmo" e associado a um verbo indica uma ação tomada em, a favor ou contra si mesmo.
Na análise que fez dos significados dos termos, o irmão acerta nos significados isolados dos termos, mas o conjunto não expressa o sentido que a análise morfológica requer, pois a função reflexiva do pronome desaparece completamente. Nas versões que o irmão adota, quem realiza e quem sofre a ação não são as mesmas pessoas. Os "para eles", "a seu respeito", "sobre ellos" e "verso di loro" (fingindo que entendi), que derivam do pronome heautoús fazem referência a uma ação de Deus em favor deles e não a um reflexo ou consequência de sua ação. Por isso é que eu creio, embora entenda quase nada, que comparativamente, as traduções que utilizei são melhores que as traduções utilizada pelo irmão.
Já fiz referência ao conteúdo do conselho de Deus no artigo anterior, então não vou me estender aqui. Apenas mencionar que ao desconsiderar o aspecto reflexivo do pronome, atribuindo-o ao conselho de Deus, fica a impressão de que o escopo do conselho de Deus era que exatamente aqueles fariseus e doutores da lei se deixassem batizar, o que não é o caso.
O contexto fala de pessoas enviadas por João Batista para perguntar se Jesus era o Messias esperado ou se esperariam outro. Então Jesus, respondendo, diz "Este é aquele de quem está escrito: eis que envio o meu anjo diante da tua face, o qual preparará diante de ti o teu caminho" (Lc 7:27). O conselho de Deus dizia respeito ao ministério de João Batista, que intimaria os moradores da Judéia a arrepender-se e serem batizados, como preparativo para a chegada de Jesus. MacArthur diz que "o chamamento de João Batista ao arrependimento era expressão da vontade de Deus. Ao recursar-se arrepender-se, recusaram não apenas João, mas o próprio Deus".
Sendo este o conselho de Deus, "todo o povo que o ouviu e os publicanos, tendo sido batizados com o batismo de João, justificaram a Deus" (Lc 7:29), por aceitarem o conselho de Deus. Já os fariseus e doutores, "não tendo sido batizados por ele", pela sua desobediência "rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos" (Lc 7:30). Ver aqui que Deus decretou que José e Joaquim seriam batizados mas eles não o foram porque tinham o poder de anular ou frustrar o decreto divino é ir além do que Jesus pretendia dizer (ou Lucas explicar) aos enviados de João.
Sei que não abordei todos os pontos levantados pelo irmão em seu segundo artigo, e isto lhe dará o direito de dizer que evitei responder alguma coisa por não ter resposta. Confesso que muita coisa que leio, não apenas do que o irmão escreve, me faz calar, pelo menos para não ser leviano com questões importantes e que não alcanço. Outras, apenas não respondo por uma questão de prioridade. Deixo-lhe a escolha do motivo que me levou a não responder todas as questões levantadas, pelo menos por enquanto.
Mas quero deixar aberta a porta para algum questionamento mais direto, para uma resposta mais objetiva. E eventualmente gostaria de lhe perguntar uma coisa ou outra sobre o que escreveu. Quem sabe consigo uma resposta objetiva?
Soli Deo Gloria
--
Postado por Clóvis no Cinco Solas em 2/22/2010 06:30:00 AM --
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